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CLÁSSICO

Clássico do Dia: 'El Cid' retrata a espessura íntima da tragédia humana

Todo dia um filme será destacado pelo crítico do 'Estado', como este de Samuel Bronston que conta a lenda do herói espanhol Rodrigo Diaz de Vivar

15/10/2020 08h36
Por: Andreia Souza
Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

Conta a lenda que Rodrigo Diaz de Vivar, o herói espanhol que, no século 11, liderou a luta contra os mouros, venceu suas maiores batalhas depois de morto. Entrou para a história como o Cid Campeador. Virou referência literária, sua gesta cantada no Poema do Mio Cid e também transformada em tragédia pelo francês Corneille. A segunda cena, do segundo ato, começa com as cinco palavras que todo estudante da França conhece - "A moi, comte, deux mots." O conde é o pai da amada de Rodrigo, Ximena. E as duas palavras vão desencadear a torrente do drama que levará à morte e ao afastamento dos amantes, para o Cid uma dor tão grande, maior até do que as causadas pelos mouros que dominam a Espanha.

Desde o fim dos anos 1950, estabelecera-se na Espanha um moldavo ambicioso que construiu, por um breve período, um império cinematográfico. Samuel Bronston fez filmes cada vez maiores, épicos gigantescos - El Cid, Rei dos Reis, 55 Dias em Pequim, A Queda do Império Romano. O último custou uma fortuna, ele se endividou além da conta. Embora seja excepcional, fracassou na bilheteria e a reconstituição do Império Romano - o Fórum, recriado nos mínimos detalhes - foi também a queda do império de Bronston, bem diferente do sucesso de El Cid, apenas alguns anos antes. Bronston deve ter levado em conta o que dizia Jean-Luc Godard, nos seus tempos de crítico, em Cahiers du Cinéma. (O futuro produtor cursou a Sorbonne, em Paris, é bom acrescentar.) Nicholas Ray era um imenso diretor, quando se tratava de construir um personagem no plano interior. Anthony Mann, igualmente grande, na construção da dimensão externa. E Godard acrescentava que, se fosse possível reunir os dois, o resultado seria o maior dos diretores.

Bronston teve a ambos sob contrato. Mann se destacara em Hollywood com pequenos grandes filmes da tendência noir, antes de abraçar o western por meio de uma memorável série com o astro James Stewart, com destaque para Winchester 73, O Preço de Um Homem e Um Certo Capitão Lockhart, mais O Homem do Oeste, com Gary Cooper, o favorito de Godard. Mann fora contratado pelo astro-produtor Kirk Douglas para dirigir Spartacus, de 1960, mas desavenças artísticas o afastaram do projeto. Em sua autobiografia, O Filho do Trapeiro, Douglas deixa subentendido que ele não tinha fôlego para um filme tão grande. Se não tinha, adquiriu. Pode-se aventar, também, que Mann estivesse querendo impressionar sua mulher espanhola, uma grande estrela, Sara Montiel.

Escrito por Philip Yordan e Ben Barzman, dois renomados roteiristas - e intelectuais -, El Cid antecipa o conceito do western crepuscular de John Ford, O Homem Que Matou o Facínora, que só surgiria em 1962. "Print the legend." Embora apoiado em fatos, ele segue a lenda. Rodrigo ganha fama ao assumir, como sua, uma afronta feita ao pai - "A moi, comte". Vencido o homem que tentou manchar a honra da família, sua glória se estendeu por toda a Espanha ao ousar forçar o príncipe Alfonso a jurar publicamente que nada tinha a ver com a morte do irmão primogênito. Na ficção de Mann, Alfonso é um fraco manipulado pela irmã, Doña Urraca, e ela deseja Rodrigo, mas ele é homem de uma só mulher, Ximena, a filha do conde que matou. A forma como o cavaleiro humilha o futuro rei acirra o ódio da mulher. Rodrigo é Charlton Heston, vivendo, talvez, o mais nobre de seus papeis maiores que a vida. Sophia Loren, na exuberância de sua carnalidade, é Ximena e Urraca é Geneviève Page, que seria depois a dona do bordel, Madame Anaïs, em A Bela da Tarde, o clássico de Luis Buñuel.

Com a propagação da lenda, nada mais natural que caiba ao Campeador a tarefa de liderar os espanhóis na batalha decisiva - Calahorra - contra os muçulmanos, que construíram seu enclave na Espanha, em Granada. A sede do califado é o Alhambra, uma obra-prima de arquitetura, reputada até hoje como tesouro da humanidade. O que você vai ler agora contém spoiler. Rodrigo morre, mas o Cid tem de viver para a batalha decisiva. Ximena e os amigos amarram seu cadáver ao não menos lendário cavalo Babieca e ele parte para a vitória na batalha após a morte. A cena é de arrepiar. Abrem-se as portas do castelo e, sob os acordes lancinantes do órgão na trilha de Miklos Rozsa, filmado em contraplongé, numa tomada de baixo para cima, Babieca avança com o Cid em toda a sua glória.

A despeito das grandes cenas de ação - duelos de espada, de liça, batalhas -, o que realmente faz a diferença em El Cid é a espessura íntima da tragédia humana. Corneille - amor, honra, lealdade, amizade. Suntuosamente fotografado por Robert Krasker, o filme tem cenas que cortam o fôlego. Ximena desce a escada curva e a câmera a acompanha num movimento vertiginoso. A cena é tão icônica que foi repetida por Mann. Na primeira, ressalta a ansiedade de Ximena diante do que poderá ocorrer com seu amado. Na segunda, é o que ela mais teme, a consumação da tragédia que os afastará por muito tempo. Em 1964, Mann, de novo com Sophia Loren, mostrou em Cannes, fora de concurso, A Queda do Império Romano. Era o ano de Deus e o Diabo na Terra do Sol, na competição. A pergunta que não quer calar - Glauber viu o épico da decadência? Nenhum dos admiradores do autor brasileiro jamais admitiu isso, talvez nem tenham se dado conta, mas Terra em Transe sai inteiro da cena final, quando Lucila/Loren, enlouquecida, corre nas ruas de Roma pedindo ajuda para salvar o império, que está sendo leiloado. Com todo respeito, não é apenas o Eldorado de Glauber, mas o Brasil delirante, em tempos de pandemia.

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