BANNER JORNALISMO DE VERDADE
BR-319

Ibama ainda tem dúvidas sobre liberar reconstrução do 'trecho do meio'

A reconstrução do segmento, que representa quase metade da rodovia, tem custo estimado em R$ 1,4 bilhão.

23/02/2021 08h53
Por: Joyce Carvalho
FOTO: Divulgação
FOTO: Divulgação

A mais recente tentativa do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) de obter o licenciamento ambiental pra reconstruir a parte mais danificada da rodovia que liga Manaus a Porto Velho corre risco de fracassar (veja ponto a ponto das tentativas anteriores abaixo).  

O quarto estudo entregue ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) já foi analisado e devolvido ao Dnit para que apresente complementações e esclarecimentos, o que, segundo o departamento, será feito até o final de março deste ano.  

Em agosto de 2020, o Dnit apresentou o Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/RIMA) com uma avaliação detalhada dos efeitos positivos e negativos que a obra pode causar ao meio ambiente e às comunidades na área de abrangência da estrada. 

O estudo também propõe ações para que os impactos sejam minimizados, evitados ou compensados. Esse levantamento foi realizado pela empresa Engespro Engenharia Ltda, contratada pelo Dnit, e contou com uma equipe técnica composta por mais de 150 profissionais como engenheiros, geólogos, biólogos, sociólogos, geógrafos, arqueólogos e auxiliares.  

Assim como os estudos apresentados em 2008 e 2009 pra obter o licenciamento do trecho do meio, o atual também não está completo, segundo avaliação do Ibama. Por e-mail, o instituto informou à Rede Amazônica que "a análise do estudo foi concluída, sendo indicada a necessidade de complementações e esclarecimentos, que devem ser apresentados pelo Dnit".  

Procurado, o Dnit confirmou que "o Ibama solicitou esclarecimentos, conforme detalhado no parecer técnico (SEI IBAMA 9031197), que trata de apresentação de alternativas tecnológicas, compromissos e responsabilidades e algumas melhorias a serem incorporadas aos estudos ambientais com o intuito de que o empreendimento possa se desenvolver satisfatoriamente quanto ao grau de sucesso esperado para conter os impactos ambientais". O departamento informou ainda que as respostas solicitadas devem ser concluídas até o final março. 

O trecho do meio da BR-319 tem 405 km de extensão, começa depois do Rio Igapó-Açu, no km 250, chegando até o entroncamento com a BR-230, no km 655, na altura de Humaitá. Trata-se da parte mais danificada da ligação AM/RO.  

O problema voltou a ser evidenciado neste mês de janeiro, quando os hospitais de Manaus ficaram sem oxigênio por conta de um novo surto de Covid. Um comboio com 160 mil m³ do insumo foi enviado de Porto Velho e deveria chegar na capital amazonense em um dia e meio, mas demorou quatro dias. 

A reconstrução do segmento, que representa quase metade da rodovia, tem custo estimado em R$ 1,4 bilhão. A obra é considerada complexa por conta dos muitos cuidados que precisam ser adotados em relação à fauna, flora e comunidades locais, e também pra evitar que o asfalto fique alagado no período chuvoso.  

Mais de 100 pontes precisam ser erguidas só nesta parte da BR, além de várias passagens aéreas e subterrâneas para animais. Em setembro de 2020, durante reunião virtual com governadores da Amazônia, o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, reiterou a intenção do governo de tornar a rodovia ambientalmente viável.  

"Nós temos que fazer da pavimentação da BR-319 um modelo de sustentabilidade e mostrar que é possível fazer pavimentação com sustentabilidade", disse. 

Em julho de 2019, quando esteve no Amazonas para a reunião do Conselho de Administração da Superintendência da Zona Franca de Manaus, o próprio presidente da República já havia reforçado a promessa de campanha de tornar a ligação do estado com Rondônia novamente transitável. “Temos a certeza que a nossa BR-319 será asfaltada”, declarou Jair Bolsonaro. 

Rodovia intrafegável desde 1988 

Inaugurada em 1976, a BR-319 podia ser percorrida de Manaus a Porto Velho em cerca de 12 horas, mas, por falta de manutenção, tornou-se praticamente intrafegável a partir de 1988. Nos governos FHC, Lula e Dilma (de 1995 a 2016), a recuperação da rodovia sempre esteve entre as obras de infraestrutura prioritárias.  

Apesar disso, nunca foi efetivada por completo. O máximo que esses governos conseguiram foi realizar obras de repavimentação e conservação nas duas extremidades da estrada, no sentido Porto Velho (RO) – Humaitá (AM) e no sentido Manaus – Careiro, no Amazonas.  

Enquanto isso, o trecho do meio recebeu apenas serviços paliativos pra tornar menos ruins as condições da parte mais deteriorada da rodovia, onde o asfalto sucumbiu à ação do tempo dando lugar a atoleiros, que dificultam e tornam perigosa a viagem de quem passa pelo local no inverno amazônico.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou com palavras ofensivas.